sábado, 26 de janeiro de 2013

Arte é vida




O internacional Cachoeirense: O artista determinado RICARDO.O reencontro


Quando criança queria ser pintora, iniciei as aulas de desenho, aos cuidados do famoso cartunista Ricardo Ferraz. Após dez anos, surge a oportunidade de escrever um perfil para o jornal da faculdade, sobre alguém importante. Retorno a Cachoeiro de Itapemirim. Descubro o endereço do artista, toco o interfone. Ele, logo me atende com o sorriso no rosto de sempre. Pode entrar e sinta-se em casa; com as palavras de boas vidas entro e conheço melhor esse grande homem.

Ricardo Ferraz é reconhecido internacionalmente por seus trabalhos através do cartoon. Sua obra está presente em jornais e revistas do Brasil, América do Sul, África do Sul, Austrália, Europa, Canadá, EUA e na ONU. Conquistou a mídia ao vencer por 4 vezes o concurso de vinhetas (Plim- Plim), da Rede Globo. Teve seus trabalhos exibidos na programação do SBT e escreveu vários livros, sendo “visão e revisão conceito e pré- conceito”, um dos exemplares mais famosos.

Ele diz que deseja mostrar para a garotada que não é necessário computador ou ateliê para compor a arte. Ricardo utiliza a cozinha de casa para desenhar, até o símbolo da Rede Globo foi feito a partir do fundo de um copo. Com humildade e persistência ele enviou os trabalhos para Globo e foi o primeiro cartunista capixaba a ter um trabalho selecionado pela emissora, também foi o criador da primeira vinheta da Globo com o tema “sensibilidade”. Acredita na força do cartum, acha que este tem a linguagem universal e utiliza a frase de Paulo França para descrever o que sente “um cartum vale milhares de palavras para o povo a quem se nega as primeiras letras'”, 
O determinado.

O ilustrador é dono de uma historia comovente, ele é daqueles que fazem do “limão que a vida dá uma boa limonada, frase adaptada pelo próprio”. Com cinco anos de idade, contraiu poliomielite, o que o deixou privado em uma cama, sem contato com outras crianças de sua idade. O menino que tinha toda a liberdade corria pela fazenda dos pais, da noite para o dia, estava preso a uma cama por conta da doença. A vocação foi descoberta em meio à dificuldade, o desenho. Com muita dedicação e carinho, ele começou os primeiros traços. Enxergava arte em tudo que fazia e visualizava. Deitado na cama em meio à solidão fazia das goteiras da infiltração diversão e desenho.

O pai de Ricardo, preocupado, foi à cidade mais próxima procurar ajuda para tratar do filho. Encontrou um farmacêutico que não pode ajudar, mas indicou o que fazer. Injeções foram aplicadas pelo pai, deixando feridas no braço, na perna da criança.  Ricardo acredita que a esperança de todo o sofrimento, foi absorvida por um papel de embrulho de pão. Com um pedaço de carvão e papel de pão, a dor parecia sumir, preenchendo o vazio que a doença promoverá. Para conseguir o papel para desenhar. Ele chorava e pedia a mãe para comprar pão. Ela montava em um cavalo e seguia para a cidade mais próxima, a fim de realizar o desejo do pequeno, que na verdade queria mesmo era desenhar.

 Na época, pessoas com deficiências não tinham o direito de trabalhar. Mas, com muita determinação ele começou a engraxar sapatos, exerceu várias funções profissionais, de agitador cultural a diretor de penitenciaria. A família Ferraz, perdeu tudo que tinha e mudou se da Bahia.  Surge o convite de passar uns dias em Cachoeiro de Itapemirim, feito por alguns amigos, pediu ao pai e recebeu um não. Convenceu a família, desde dessa época nunca mais, a não ser para representar o município, país com sua arte.
Durante o período conhecido como Ditadura Militar. Morou na casa do Estudante. Está foi símbolo da resistência política, eram realizados os festivais da canção de onde surgiu o famoso Sergio Sampaio, que morou com Ricardo e outros artistas na casa do estudante.
O olhar brilhante
Eu e Ricardo

Ricardo quis mostrar algo que guarda com carinho, em particular. Mensagens de voz na secretaria eletrônica. Uma serie de jornalistas, escritores ligam para ele e deixam recados carinhos e informações sobre o trabalho. Pedindo a participação em grandes mídias e jornais. O Globo, a Folha de São Paulo e outros fazem parte das memórias guardadas na secretaria eletrônica. Ao escutar e relembrar cada momento e entrevista. Os olhos brilham e ele por alguns instantes fica calado. Algo difícil para alguém tão comunicativo e desinibido. 

Uma pessoa comum, que não deixa o orgulho subir a cabeça.  Aprendeu a lidar com o preconceito, através do cartum. Conseguindo registrar os flagrantes das barreiras físicas e dificuldades  encontradas pelos deficientes através da arte. Como militante, artista, cidadão ele declara ter uma vida normal, limitações como qualquer pessoa. Ele vive a realidade, pegando ônibus, subindo degraus, andando por todo o canto.  
Cachoeiro

Utilizando a frase “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.", de Liev Tolstói .Para Ricardo foi mais fácil ser universal, do que cantar a aldeia.  A quebra do paradigma quando se é um artista normal, segundo o ilustrador é complicado. Ele destaca que teve um reconhecimento maior fora do país. Ricardo foi destaque entre as 20 personalidades do mundo inteiro, com algum tipo de deficiência, por uma famosa revista francesa entre outras revistas e mídia que teve destaque.


Algumas matérias que guarda com carinho.

 

Em Cachoeiro, ele recebeu os dois maiores homenagens da cidade. A comenda de Newton Braga e a comenda Rubem Braga. Antigamente essas comendas eram destinadas a grandes personalidades, coronéis, políticos, pessoas de pose. O artista acredita que foi a primeira pessoa simples a receber esses prêmios. Também recebeu o titulo de Cachoeirense presente. Ele brinca com o titulo do Cachoeirense ausente que está longe do calor do município e que o presente está realizando o trabalho em prol da cidade, das pessoas locais e diz que prefere cantar sua aldeia sendo presente na atuação no município.

A historia de Ricardo é extensa. É possível escrever um livro e rechear de desenhos e textos sobre a biografia desse grande homem que supera obstáculos diários e realiza um belo trabalho. O pai de Patrícia, o avô bobão de Maria Clara fica sem reação quando a pergunta final é: Será que a netinha vai seguir os passos do vovô? A arte.

Um abraço ao meu querido artista, que me recebeu em sua casa e por duas semanas me orientou com entrevistas.
Aline Amaral


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